Assim começou a vida do menino sonhador que, sempre debruçado sobre uma folha de papel, desenhava e coloria as estórias que contava - seus sonhos de criança.
Autodidata, pintava sobre madeira e vendia seus trabalhos em feiras de arte. Aos dezesseis anos, sentindo necessidade de orientação acadêmica, procurou o Mestre Fabiano de São José, com quem passou a estudar pintura. Já em sua primeira exposição, dois anos depois, foi considerado o pintor revelação da região.
Depois, partiu para os Estados Unidos onde estudou artes no Colorado Institute of Art, em Denver. Realizou várias exposições e viu sua arte alçar vôo.
De volta ao Brasil, a formação de uma família e a dificuldade de mantê-la com a pintura fizeram com que Aecio Sarti abandonasse sua arte. Um certo dia pela manhã, depois de ter sonhado que estava voando, viu seu filho pequeno pintando com a alegria e a liberdade de um menino. Buscou numa caixa suas tintas guardadas por quase vinte anos e pintou o quadro “Sonho de Liberdade”. Esse foi o dia que marcou para sempre a vida do artista, que nunca deveria ter deixado de pintar.
O ano de 2002 marcou indelevelmente sua carreira. Aecio Sarti resolveu abandonar tudo, passando a viver exclusivamente de sua arte. Um ano depois foi para a Espanha, onde expôs na Embaixada do Brasil, em Madri, depois em Santiago de Compostela, Pontevedra e outras cidades.
"Sonhos de Criança", fase onde resgatou seus quatro anos de infância perdida, foi riquíssima para o artista, encantando, inclusive, apreciadores não só espanhóis como de várias partes do mundo.
Aqui, seus quadros retratavam as brincadeiras de criança, seus sonhos e os das crianças que estavam a sua volta.
Dona Almerinda, uma mulher só que costurava vestidos novos com cortinas velhas para as meninas mais pobres, foi marcante em sua infância. Era ela quem ensinava a importância dos sonhos e acreditava na verdade das crianças. Foi com a memória de Dona Almerinda que Aecio Sarti pintou sua série intitulada “Vestidos Novos”, que lhe rendeu um prêmio no Salão “Integration Art Show”, de Miami, em 2004.
Mas a vasta série “Sonhos de Criança” chegou ao fim, como se tivesse preenchido uma lacuna. Rapidamente, foram surgindo novas imagens para Aecio Sarti, como se ele se inspirasse em seus próprios desenhos. Hoje, suas figuras são alongadas, mas com a mesma poesia que marca sua história.
Há três anos Aecio Sarti vive em Paraty, no Rio de Janeiro. Uma cidade colonial à beira mar,
rodeada de montanhas e floresta tropical com muitos rios e cachoeiras. Seu ateliê fica à beira do cais, onde aportam todos os dias vários barcos de pesca de madeira colorida. Turistas do mundo inteiro circulam nesse cenário rico em beleza natural, se misturando aos nativos. Aecio Sarti pinta com as portas abertas. As pessoas entram e saem criando um movimento inspirador.
Nos momentos de descanso, ele se refugia em sua casa numa vila de pescadores, sem energia elétrica e sem acesso por terra. O convívio com pessoas muito simples o ajuda a renovar suas energias. A vista paradisíaca, a praia, as canoas de madeira, o peixe fresco e as noites estreladas preparam o artista para novas etapas de trabalho.
Hoje, o artista pinta sobre “lona de caminhão” - uma tela de puro algodão que cobre a carga de grande parte dos caminhões no Brasil. Ainda que existam profissionais que têm como profissão costurar os rasgos provocados pelo tempo e pelo uso, com Aecio Sarti é diferente. Em suas criações, ele conserva todas as marcas e remendos das lonas, perpetuando uma história de trabalho aliado à arte.
